Na engrenagem sofisticada das grandes feiras, onde mercado e discurso se entrelaçam, a participação da Galeria Frente na SP-Arte 2026 se afirma como um gesto de síntese: reunir obras que não apenas atravessaram o tempo, mas ajudaram a defini-lo. Mais do que um recorte comercial, a galeria constrói um percurso que evidencia sua atuação no mercado secundário ao longo de mais de uma década, ancorada em nomes que moldaram a visualidade moderna e contemporânea.

Obra de Tomie Ohtake

Sob curadoria precisa, o estande articula diferentes períodos e linguagens, aproximando artistas como Antonio Dias, Carlos Cruz-Diez, Fernando Botero, Di Cavalcanti e Sérgio Camargo. O conjunto revela uma constelação heterogênea, na qual convivem investigações formais, tensões políticas e experimentações com matéria e espaço — traços que, em diferentes chaves, compõem a história da arte no século XX.

Para Acacio Lisboa, a presença na feira reafirma um compromisso que ultrapassa o mercado:

“Buscamos desenvolver um espaço no evento onde o público possa apreciar obras únicas. Com isso, enriquecemos a experiência do visitante, fomentamos o mercado de colecionadores e elevamos o prestígio da arte nacional.” —Acacio Lisboa

Entre os destaques, a presença de Amadeo Luciano Lorenzato estabelece uma ponte direta entre a feira e o espaço expositivo da galeria. A mostra O mundo misterioso inventado por Lorenzato, em cartaz simultaneamente em sua sede, reverbera na SP-Arte com a apresentação de obras emblemáticas — entre elas, Sem título, escolhida para a capa do livro homônimo lançado durante o evento. A publicação, com texto curatorial de Agnaldo Farias e ensaio de Jacob Klintowitz, amplia a leitura sobre o artista mineiro, cuja pintura transforma cenas ordinárias — favelas, paisagens, práticas agrícolas — em construções de notável densidade poética.

A operação da galeria, nesse sentido, não se limita à exibição: ela se expande como plataforma editorial e crítica, tensionando o circuito entre obra, pesquisa e circulação. Essa mesma lógica atravessa a escolha de trabalhos de Lygia Pape, como O Olho do Guará nº 13, em que luz, cor e materialidade se articulam em um vocabulário que oscila entre o orgânico e o simbólico, reiterando o interesse da artista por uma sensorialidade profundamente enraizada na cultura brasileira.

Lygia Pape, O Olho do Guará n° 13

Já no campo internacional, a presença de Sam Francis, com a obra Blue Jade, introduz uma inflexão abstrata marcada pela intensidade cromática e pela gestualidade expandida. Sua produção dialoga com o legado do expressionismo abstrato — de Mark Rothko a Jackson Pollock — ao mesmo tempo em que afirma uma poética singular, na qual o vazio e a cor operam como campos de energia.

Obra “Blue Jade” de Sam Francis

Fundada em 2015, a Galeria Frente consolidou-se como um dos principais polos dedicados ao mercado secundário de arte moderna e contemporânea brasileira. Sua trajetória — que inclui exposições de nomes como Mira Schendel, Frans Krajcberg e Candido Portinari — evidencia um projeto que alia rigor histórico, vocação curatorial e atuação estratégica no circuito. Na SP-Arte 2026, esse percurso se materializa em um estande que não apenas expõe obras, mas encena uma narrativa sobre permanência, valor e memória na arte.


Serviço: Galeria Frente na SP-Arte 2026, no Pavilhão da Bienal, Parque Ibirapuera, portão 3. Localização Galeria Frente – C01. Lançamento do livro“O mundo misterioso inventado por Lorenzato”, dia 8 de abril, das 17h às 20h, estande C01 – Galeria Frente na SP-Arte.

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Publicado por:Philos

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